O primeiro mês do ano passou normalmente, pelo Carnaval fui buscar a minha mãe para passar o dia connosco, ao fim do dia fui leva-la a casa, tudo parecia estar bem, mas na quinta feira, a minha cunhada telefonou-me, a dizer que tinha estado a ligar para ela e que o telefone chamava e ela não respondia.
À hora de almoço não fui almoçar e fui direito a casa dela, pensei como em tantas vezes anteriores já tinha acontecido, ou ela não estava em casa, ou estava a dormir, mas infelizmente desta vez não foi isso que sucedeu, mas aquilo que eu sempre temi .
Abri a porta, chamei por ela mas nada, fui ao quarto e não a vi mas de repente ouvi um chamar muito fraco "Vasco", corri para ela, estava deitada no chão e pelo modo de falar e reagir vi logo que lhe tinha dado alguma coisa, por azar o telefone estava do outro lado da cama, e ela coitada com a vontade de me telefonar tentou arrastar-se por baixo da cama. e por isso estava com nódoas negras .
Liguei logo para o 112, vieram rápido e foi logo ali assistida por uma médica que me disse que ela tinha tido um AVC, foi para o hospital esteve lá em recuperação, mas pouco recuperou,ficou com a parte direita paralisada, a fala ficou bem e ela conseguia lembrar-se mais ou menos o que se passou, quando teve alta fui chamado pela médica, onde me deu um diagnóstico nada positivo,precisava de apoio continuado, de usar fralda, e tinha de fazer fisioterapia para ver se conseguia recuperar o andar.
Como em casa estávamos os dois a trabalhar, o meu irmão em Moçambique e a minha cunhada com problemas de coluna, resolvemos procurar um lar para ela ter assistência continuada, escolhemos um perto de nós para poder dar também algum apoio, que ela bem iria precisar.
Compreendo que para ela seria o melhor dado o seu estado, embora me tenha custado ter de o fazer, e sei que ela também nunca aceitou muito bem a situação.
Foi preciso uma cadeira de rodas que o meu patrão ofereceu, a quem eu muito agradeço também pela facilidade de sair, para a ir buscar ao hospital duas vezes por semana depois da fisioterapia, onde ela ia com a minha cunhada de ambulância, ainda lá andou uns meses, mas com muito sacrifício, mesmo connosco a dar-lhe força para se por boa, para ir ao casamento da neta, nem isso fez que ela tivesse mais animo e força de vontade para melhorar, por fim sem melhoras visíveis acabou por desistir da fisioterapia.
Apesar de todo o apoio que lhe dávamos, raro foi o dia que não estava com ela á hora de almoço para a fazer comer alguma coisa, ela foi-se entregando ao destino e começou a enfraquecer, começou também a ter convulsões e muitas vezes teve de ir ao hospital para tratamento, também partiu a perna ao cair da maca quando lhe mudavam a fralda.
Ainda saí com ela algumas vezes, pela Páscoa veio ainda a minha casa passar o dia connosco e com o meu irmão, levei-a no carro a visitar a casa onde morava, mas a cada dia tudo piorava e ela cada vez mais abatida, passou o ano com altos e baixos, também eu comecei a ir abaixo, era de facto difícil vê-la ali a sofrer sem nada se puder fazer, restava dar-lhe todo o meu apoio e carinho, e com a minha presença um pouco de alegria, e quando ela me dava um sorriso eu já me sentia compensado, muitas vezes me despedia dela e saia com lágrimas nos olhos, e ela me pedia para no dia seguinte ir vê-la, pedido que eu sempre que possível satisfazia, era a minha mãe e já que mais nada se podia fazer ,pelo menos satisfazia o seu pedido ,e aquela hora que estava com ela, era para ela a melhor hora do dia, senti-a contente e feliz, acho que era o minimo que podia fazer por ela, e assim se passou o ano, de sofrimento para ela e para todos nós.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
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1 comentário:
Ainda agora e apenas com a tua tão perfeita descrição de tudo, me arrepio com este acontecimento. Foi muito duro, vê-la a entregar-se dia após dia, sem tentar lutar para melhorar. Era um desconsolo ir visitá-la já mais para diante. Parecia que ela já nem ligava! No inicio era bom ver como ela ficava feliz por nos ver, mas o problema foi ela nunca ter aceitado estar no lar!
Mas a vida a isso nos impõe. Muitas saudades nos deixa.
Beijocas.
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