quarta-feira, 26 de setembro de 2007

REORGANIZAR A VIDA

Depois do choque veio o refazer a vida, algo tinha mudado eu sentia uma falta constante,de manha á noite no trabalho, no refeitório,nos balneários e até nos transportes, eu procurava a presença do meu pai, e foi-me difícil convencer-me que jamais o voltaria a ver, aquele local era-me doloroso, mas quis o destino que não estivesse lá muito mais tempo,pois os salários começaram a faltar ,o patrão foi para a América, a firma ficou entregue a um engenheiro que deixou de aparecer, e eu como tinha a chave das instalações junto com os meus colegas decidimos encerrar a fábrica, de acordo com o patrão, trouxe uma carrinha Ford Transit que ele passou para meu nome, e que foi o primeiro carro que eu tive, fui para o fundo de desemprego,mas logo comecei a trabalhar noutro lado.
Comecei a trabalhar numa firma que fazia quadros eléctricos e instalações em prédios,andei cerca de um ano nos prédios e depois passei para os quadros , um trabalho que eu gosto muito de fazer, e um dos que me deu mais gosto foi os 30 quadros que fizemos para o navio escola "SAGRES".
Nessa firma, e por altura do grande incêndio do Chiado andava eu a reparar e pintar a minha carrinha, para durar mais uns anos, ia para lá ao fim de semana e lá consegui que ficasse melhor, fiz com ela muitas viagens ao Alentejo, e de lá ainda levei meus tios e primas meu sogro,e uma tia da minha mulher a Fátima, a carrinha era de nove lugares foi quase uma excursão, foi muito divertido.
Por essa altura abriu uma loja de material eléctrico nas Paivas a "ARMASUL" tornei-me amigo dos donos, e por intermédio deles fui fazer um quadro eléctrico a uma firma na Amora a "Lopes & Moura", uma metalomecânica que começava a trabalhar para a "Indelma" uma firma de cablagens para automóveis.
Por esta altura eu ,meu irmão e um colega o Manel Contente fazíamos muitos trabalhos ao fim de semana, e lá íamos ganhando mais uns trocos, fizemos instalações eléctricas em vivendas,em quintas para casamentos, em pastelarias,etc.
Entretanto fui convidado para ir trabalhar para a "Lopes & Moura" entrei a 1 de Maio de 1989.
Em casa tudo corria bem, a Célia lá ia na escola com bons resultados, continuava na ginástica, e nós lá íamos vivendo menos mal, aos fins de semana lá ia buscar a minha mãe para passar o dia connosco, pois ela continuava a morar em Mutela agora sozinha, mas como passou a ter telefone falava com ela quase todos os dias.
Foi por esta altura que fui assistir ao levantamento dos ossos do meu pai,pude ver então como ele tinha o crânio, estava rachado de alto a baixo .

terça-feira, 25 de setembro de 2007

MEU PAI, MEU VELHO, MEU AMIGO

A HOMENAGEM

Meu pai, porque o fostes de verdade, um PAI Grande
Meu velho, forma carinhosa para um Grande PAI
Meu amigo, o meu melhor amigo foi o Meu PAI
Nesta simples homenagem, que apesar de só hoje nas minhas memórias te estar a dedicar por escrito, sabes bem ela existe na minha memória desde sempre, não era deste modo que te cria homenagear mas como partiste sem me dares tempo de o fazer aqui e agora ta dedico.
Obrigado pai por me teres gerado
Obrigado pai por teres sido meu pai
Obrigado porque fostes o melhor pai do mundo
Obrigado pelo sacrifício que fizestes para me criar
Obrigado pela educação que me destes
Obrigado pelo "não" que muitas vezes me destes
Obrigado por tudo que me ensinastes
Obrigado pelo ombro amigo
Obrigado por todos os momentos felizes que passámos juntos
Obrigado por teres sido meu confidente
Obrigado por me ensinares a ser o homem que sou hoje
Obrigado por me teres apoiado nos momentos difíceis
Obrigado porque apesar de teres partido continuo a sentir o teu apoio nos momentos que mais preciso
OBRIGADO PAI
Desculpa pelas birras que fiz
Desculpa pelos sacrifícios que te fiz passar
Desculpa se alguma vez te desrespeitei
Desculpa se te dei algum desgosto
Desculpa se alguma vez não correspondi ás tuas expectativas
Desculpa se não fui o filho que tu sonhavas
Desculpa não te ter podido dar tudo aquilo que tu merecias
Desculpa se alguma vez ficou uma desculpa por te pedir
Desculpa por não ter conseguído evitar que partisses tão cedo
DESCULPA PAI
Porque agora como pai, sei também dar valor pelos sacrifícios e restrições por que passastes para nos criar e educar, e na altura em que tinhas tudo, para junto com a mãe terem uma vida melhor e mais desafogada tu partiste, deixastes um vazio enorme em nossas vidas, mas sei que onde quer que estejas estás orgulhoso de nós, pela vida que temos e pelo que conseguimos, muita vez ao trabalhar na minha casinha, eu falava de ti "que jeito me dava ter aqui o ti João Milho" tive que ser eu a fazer aquilo que tu melhor sabias fazer, mas senti o teu apoio e meti mãos á obra , fiz coisas que nunca tinha feito, mas que te vi fazer durante muitos anos,tu eras mestre.
Fostes tu que me destes mais uma lição de vida ao partires, ensinastes-me a olhar a vida em frente, depois de ter pela primeira vez sentido a perda de alguém tão querido e que eu amava do fundo do coração, é uma dor alucinante que nos trespassa o coração, é um sentimento de impotência que nos consome , a dor vai-se atenuando ou nós vamos-nos habituando a ela, agora a saudade essa aumenta dia a dia e a tua lembrança permanecerá comigo até ao resto dos meus dias.
Como eu gosto de te ver na foto que mandei fazer onde estás com os filhos ao colo, e mais tarde com as netas, netas essas que eram as meninas dos teus olhos, ainda recordo tu ralhares comigo por eu ter dito á Célia para não chatear o avô,tu querias era brincar com ela, e agora sou eu que se Deus quiser estou prestes a ser avô, e á uma verdade tua que não esqueci.
Filho és
Pai serás
Se fores avô
De novo pai, verás
Muito mais poderia dizer mas há coisas que são nossas e connosco morrerão , para ti pai um abraço do tamanho do universo, decerto chegará até ti onde quer que estejas, as saudades ficam comigo, um até sempre
OOOOOOOOOBRIGADO PAI.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

ANO BISSEXTO, 29 O DIA MAIS TRISTE

O ano de 1984 parecia começar bem, o mês de Janeiro correu normalmente, em Fevereiro, o meu padrinho que estava na Alemanha veio cá, com planos para se reformar queria construir uma vivenda no Miratejo, e foi falando com o meu pai para ser ele a fazer a obra, ele estava um pouco renitente ,pois nunca tinha gerido uma obra tão grande, como eu trabalhava junto com o meu pai lá fui falando com ele, dei-lhe o meu apoio, disse-lhe que eu e o meu irmão íamos ajudá-lo, e por outro lado as coisas na Gaivota não íam lá muito bem, lá o convencemos a aceitar.
No dia 14 de Fevereiro, dia em que fez 52 anos reuniu a família lá em casa, os filhos, as noras, as netas e também os meus padrinhos para se acertar o início das obras, tudo correu bem.
Lá no trabalho fui conversando com ele, íamos falar com o patrão para o dispensar, e ele começava a ficar entusiasmado com o novo desafio.
No dia 28 disse-me que no dia seguinte não ia trabalhar, queria ir dar sangue como era costume, eu disse-lhe para ir no sábado que íamos os dois, mas ele não quis, pois tinha programado ir passar o fim de semana a Vila Franca de Xira, a casa da irmã Dionísia e assim fez.
Dia 29 regresso do trabalho, e estávamos a jantar quando recebo um telefonema do meu irmão, "vem já para cá que o pai teve um acidente e está muito mal", peguei na mulher e filha e como tinha cá o "dois cavalos" da firma fomos logo directos a casa do meu irmão.
O que eu jamais imaginaria aconteceu, ao entrar em casa do meu irmão encontro tudo a chorar, minha mãe abraça-me e o meu irmão disse-me, " o pai morreu".
Foi o choque total, quis saber os pormenores, e minha mãe lá me foi explicando, tinha ido dar sangue de manha, veio almoçar e comentou com a minha mãe, que lhe tiraram sangue apesar de ter a tensão alta porque havia falta de sangue do grupo do dele, e que o mandaram ir ao médico,acabou de almoçar e disse á minha mãe que ia dar uma volta , e que ás 5h ia ter com o meu tio Gregório ao portão verde da marinha, para combinar o fim de semana em Vila Franca, falou com ele e voltava para casa quando se sentiu mal, foi visto por pessoas sentado num muro, pouco tempo depois foi encontrado caído na parte de trás do muro,com o crânio aberto caiu duma altura de cerca de 5mt.
A noticia foi dada á minha mãe por um funcionário de uma agência funerária !!!! que a levou para casa do meu irmão.
E ali estávamos todos estupefactos eu não queria acreditar, o meu pai o meu melhor amigo e confidente tinha-nos deixado, como era possível ? ,esperava tudo menos isto não estava preparado , uma dor dilacerante percorreu meu coração, jamais tal coisa me tinha passado pela cabeça, naquele momento senti-me órfão e abandonado.
Tinha que ir para o hospital, queria ir vê-lo, já lá estavam alguns amigos que nos apoiaram, e por volta das 3h da manha pediram alguém da família para reconhecer o corpo,o meu irmão não quis ir, fui lá eu ,eu tinha que o ver para acreditar, entrei com um enfermeiro que me pediu coragem, vamos em frente eu quero vê-lo, entrei e parei estarrecido, tentei correr para o abraçar mas fui impedido,jamais esquecerei aquela imagem, meu pai jazia numa pedra coberta de sangue que o seu crânio aberto deixara correr, fiquei por uns minutos olhando seu corpo, sua expressão tentando compreender como que esperando uma resposta dele, quando o enfermeiro me disse que não se pode fazer nada,tinha aberto o crânio a meio, chegara já sem vida.
Seguiu-se os trâmites legais, o corpo veio para a igreja da Piedade,todos os familiares e amigos nos acompanharam nesta hora tão triste e dolorosa, passei muito do tempo junto da sua cabeceira, era ali junto dele que me sentia bem, o meu ombro amigo,os abraços e até o que chorámos juntos, tudo me passava pela frente como o filme da nossa vida e que tão abruptamente acabava,foi com uma dor imensa,uma saudade infinita que ainda hoje persiste, que me despedi dele com um ultimo beijo, neste beijo foi acumulado todos os beijos que eu ainda tinha para lhe dar, doeu, ainda hoje dói mas Deus assim quis, de certeza Ele deu-te um cantinho muito especial lá no Céu, pelo Homem, pelo Pai, amigo, companheiro e confidente que fostes o meu muito obrigado, até sempre PAI.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

CONTUDO A VIDA CONTINUA

È verdade a vida tem de continuar para os que cá ficaram, a saudade e a lembrança das pessoas queridas, essa ficará para sempre nos nossos corações.
A nossa vida continuava, eu e minha mulher lá íamos trabalhando, eu na Gaivota e ela na Indelma, a Célia lá ia crescendo sem problemas de maior, apenas o problema de respirar, mais á noite, por isso tivemos que comprar um vaporizador e ela lá adormecia melhor.
Por esta altura meu pai foi trabalhar para a Gaivota como pedreiro, na ampliação das instalações, e retomámos o nosso convívio diário,a amizade e cumplicidade que sempre nos uniu.
A Gaivota todos os anos pelo Natal dava uma festa, para os colaboradores e respectivas famílias, numa dessas festas o meu pai tirou uma foto com as duas netas ao colo, o mais engraçado foi a coincidência das netas ficarem no mesmo lado dos pais, numa foto tirada muitos anos atrás, meu pai comigo e meu irmão ao colo.
Entretanto os dois sócios da Gaivota separam-se,eu e o meu pai ficámos na Gaivota , o meu irmão foi para a Gruel que era uma outra firma do grupo, e que ficou para um dos sócios.
Aos fins de semana, eu e meu irmão arranjávamos uns trabalhos extras, por vezes ia também o nosso pai, era mais uns tostões que entravam.
Aos fins de semana lá íamos dando uns passeios,umas vezes a casa dos meus cunhados Felicia e Cardoso, ver a nossa afilhada Elsa e o irmão Paulo,outras vezes dando outros passeios, fomos passar um fim de semana ao Cercal, perto das Caldas da Rainha a casa dos meus tios Emília e Gerardo.
Comecei a andar com um carro da firma e aos fins de semana lá dávamos uns passeios, o carro era um dois cavalos e a Célia gostava muito de andar nele.
Estávamos nos fins de 1983, fomos ao Alentejo apanhar azeitona, pedi uma carrinha ao meu patrão,serviu para levar as sacas de azeitona para o lagar, foi bonito, todos os irmãos da minha mulher juntos, as crianças a brincar, e todos pendurados nas oliveiras lá íamos ripando as azeitonas e enchendo as sacas, apesar do frio era bom pois confraternizávamos , bebíamos uns copos para aquecer e sempre dava uns litros de azeite para cada um.
Passámos lá o Natal com o meu sogro e meus cunhados Felícia e Cardoso mais a criançada toda, fez-se as filhoses e á meia noite abriu-se as prendas, a Célia fez os quatro anos, e viemos passar o Ano Novo com os meus pais.

FALECIMENTO DA MINHA SOGRA

A nossa vida corria bem, a Célia ia crescendo sem problemas, pela Páscoa fizemos o baptizado dela, foi na igreja da Amora, o almoço foi em nossa casa que apesar de pequena ainda cá couberam vinte e tal pessoas.
Eu lá continuava a trabalhar na Gaivota, comecei a tirar a carta de condução de ligeiros e pesados, fiz exame em Janeiro de 80 e passei, até foi um exame um pouco fora do comum, pois a camioneta do exame era uma Bedford antiga com travões a ar, a frente era direita e o vidro era logo a nossa frente, ia eu na avenida principal de Setúbal com sinal verde, quando de repente dum cruzamento aparece um carro, eu para não bater meti travões a fundo, o examinador ia distraído e como não havia cintos!!!!! bateu com a cabeça no vidro, mandou-me logo para o local de partida, o exame ia com dez minutos, eu voltei sem ele me dizer mais nada, lá ia agarrado a cabeça e eu a pensar "já estou feito" , parei a camioneta e ele pediu-me os papéis e foi lá para dentro, esperei uns dez minutos ele veio e disse-me que tinha passado, tinha evitado um acidente então estava apto a conduzir, deu-me os parabéns, eu pedi-lhe desculpa pelo galo na cabeça, e lá vim com a carta de pesados onde ele colocou também os semi-reboques e atrelados como prémio.
Em Agosto, a minha mulher e filha foram com os meus cunhados, Felícia e Cardoso de férias para o Alentejo, eu ia uma semana mais tarde pois fazia falta no trabalho.
Ao chegarem perto de casa dos meus sogros, passa por eles uma ambulância com urgência, e ao chegarem lá ficam a saber que era a minha sogra, estava a limpar a casa para receber as filhas e os netos, e sofreu um A.V.C.,entrou no hospital muito mal, não via e não falava,mas lá ia resistindo, passado três ou quatro dias eu fui para lá, cheguei quase de noite, o meu cunhado Joaquim esperava-me e ainda consegui ir vê-la ao hospital, ele disse-lhe:
-Mãe está aqui o Vasco, eu segurei-lhe a mão ela apertou-me a minha, e nessa noite ela faleceu, parecia que esteve á minha espera, foi um choque, o que seria umas belas férias em família, infelizmente tornou-se em dor e sofrimento para todos nós, foi a vontade de Deus, faleceu a 22 de Agosto de 1982 precisamente no dia dos anos do filho João José, ficou um imenso vazio e saudade que ainda hoje persiste.