segunda-feira, 24 de setembro de 2007

ANO BISSEXTO, 29 O DIA MAIS TRISTE

O ano de 1984 parecia começar bem, o mês de Janeiro correu normalmente, em Fevereiro, o meu padrinho que estava na Alemanha veio cá, com planos para se reformar queria construir uma vivenda no Miratejo, e foi falando com o meu pai para ser ele a fazer a obra, ele estava um pouco renitente ,pois nunca tinha gerido uma obra tão grande, como eu trabalhava junto com o meu pai lá fui falando com ele, dei-lhe o meu apoio, disse-lhe que eu e o meu irmão íamos ajudá-lo, e por outro lado as coisas na Gaivota não íam lá muito bem, lá o convencemos a aceitar.
No dia 14 de Fevereiro, dia em que fez 52 anos reuniu a família lá em casa, os filhos, as noras, as netas e também os meus padrinhos para se acertar o início das obras, tudo correu bem.
Lá no trabalho fui conversando com ele, íamos falar com o patrão para o dispensar, e ele começava a ficar entusiasmado com o novo desafio.
No dia 28 disse-me que no dia seguinte não ia trabalhar, queria ir dar sangue como era costume, eu disse-lhe para ir no sábado que íamos os dois, mas ele não quis, pois tinha programado ir passar o fim de semana a Vila Franca de Xira, a casa da irmã Dionísia e assim fez.
Dia 29 regresso do trabalho, e estávamos a jantar quando recebo um telefonema do meu irmão, "vem já para cá que o pai teve um acidente e está muito mal", peguei na mulher e filha e como tinha cá o "dois cavalos" da firma fomos logo directos a casa do meu irmão.
O que eu jamais imaginaria aconteceu, ao entrar em casa do meu irmão encontro tudo a chorar, minha mãe abraça-me e o meu irmão disse-me, " o pai morreu".
Foi o choque total, quis saber os pormenores, e minha mãe lá me foi explicando, tinha ido dar sangue de manha, veio almoçar e comentou com a minha mãe, que lhe tiraram sangue apesar de ter a tensão alta porque havia falta de sangue do grupo do dele, e que o mandaram ir ao médico,acabou de almoçar e disse á minha mãe que ia dar uma volta , e que ás 5h ia ter com o meu tio Gregório ao portão verde da marinha, para combinar o fim de semana em Vila Franca, falou com ele e voltava para casa quando se sentiu mal, foi visto por pessoas sentado num muro, pouco tempo depois foi encontrado caído na parte de trás do muro,com o crânio aberto caiu duma altura de cerca de 5mt.
A noticia foi dada á minha mãe por um funcionário de uma agência funerária !!!! que a levou para casa do meu irmão.
E ali estávamos todos estupefactos eu não queria acreditar, o meu pai o meu melhor amigo e confidente tinha-nos deixado, como era possível ? ,esperava tudo menos isto não estava preparado , uma dor dilacerante percorreu meu coração, jamais tal coisa me tinha passado pela cabeça, naquele momento senti-me órfão e abandonado.
Tinha que ir para o hospital, queria ir vê-lo, já lá estavam alguns amigos que nos apoiaram, e por volta das 3h da manha pediram alguém da família para reconhecer o corpo,o meu irmão não quis ir, fui lá eu ,eu tinha que o ver para acreditar, entrei com um enfermeiro que me pediu coragem, vamos em frente eu quero vê-lo, entrei e parei estarrecido, tentei correr para o abraçar mas fui impedido,jamais esquecerei aquela imagem, meu pai jazia numa pedra coberta de sangue que o seu crânio aberto deixara correr, fiquei por uns minutos olhando seu corpo, sua expressão tentando compreender como que esperando uma resposta dele, quando o enfermeiro me disse que não se pode fazer nada,tinha aberto o crânio a meio, chegara já sem vida.
Seguiu-se os trâmites legais, o corpo veio para a igreja da Piedade,todos os familiares e amigos nos acompanharam nesta hora tão triste e dolorosa, passei muito do tempo junto da sua cabeceira, era ali junto dele que me sentia bem, o meu ombro amigo,os abraços e até o que chorámos juntos, tudo me passava pela frente como o filme da nossa vida e que tão abruptamente acabava,foi com uma dor imensa,uma saudade infinita que ainda hoje persiste, que me despedi dele com um ultimo beijo, neste beijo foi acumulado todos os beijos que eu ainda tinha para lhe dar, doeu, ainda hoje dói mas Deus assim quis, de certeza Ele deu-te um cantinho muito especial lá no Céu, pelo Homem, pelo Pai, amigo, companheiro e confidente que fostes o meu muito obrigado, até sempre PAI.

1 comentário:

Família Pipoca disse...

Cá estou eu novamente a chorar baba e ranho. Estas tristes histórias emocionam-me sempre muito.
Ainda tenho na memória partes dessa noite fatídica. Eu também gostava muito dele. Foi pena ter falecido tão cedo!