LEVAR ALMOÇO AO PAI
Muitas vezes fui levar o almoço ao meu pai,como era pedreiro,andava numa firma que construía prédios nem sempre trabalhava no mesmo sítio,e lá ia eu a pé ou de autocarro,ainda me recordo que o bilhete eram 6 tostões,geralmente levava uma mala que chamavam lancheira com o almoço do meu pai e o meu,sim que eu almoçava com ele e só vinha embora quando ele pegava ao serviço.
O 25 DE ABRIL DE 1974
Quando na manha desse dia minha mãe me acordou,dizendo que havia guerra em Lisboa,o meu pai já tinha saído para o trabalho,fiquei muito atento ás noticias,percebi que de facto não era guerra, mas uma rebelião das nossas tropas em protesto com o governo de então,contra a guerra que mantínhamos nas colónias de África, e que já tinha provocado a morte de muitos jovens portugueses.
Meu pai só trabalhou de manha ,eu não tive escola,pois mandaram todas as pessoas recolher ás suas casas e manterem-se calmas,mas o povo começou a perceber que a revolução estava em marcha e saíu ás ruas,em apoio aos soldados no derrube do governo que nos oprimia,pois não se podia falar, ter opinião,discordar do governo etc.
Ainda me recordo que uns anos antes no 1º de maio,meu pai ao vir do trabalho por volta das 6 da tarde, parou junto ao jardim da Cova da Piedade para falar com um amigo e logo foi agredido pela GNR,nesse dia, o dia do trabalhador não era feriado e não se podia parar na rua.
Com este dia o povo português ganhou a liberdade,acabou a guerra e passámos a viver em democracia.
Este dia passou a ser feriado,o dia da liberdade,e em Mutela durante muitos anos fazia-se uma festa, enfeitavam-se as ruas, punha-se a bandeira nacional ás janelas, e era da nossa casa que saía a música que se ouvia durante todo o dia.
No 1º de Maio era igual,tínhamos dois bonecos simbolizando um trabalhador e uma trabalhadora,colocávamos uma mesa no centro do largo, duas cadeiras e os bonecos lá sentados, na mesa não faltava o pão, azeitonas, vinho, bolos etc,e vinha muita gente ver a nossa festa.
No livro "Almada antiga e moderna",de que guardo um exemplar,pode-se ver fotos e um artigo a relatar estes factos,onde se fala do D.Maio e Dª Maia,e onde eu estou numa dessas fotos.
FESTAS POPULARES
Começámos também,eu,meu irmão e mais alguns amigos lá da rua, a fazer as festas populares,o Santo António,o São João e o São Pedro,havia comes e bebes,bailes variedades,cinema,ainda me recordo de lá ver actuar o Herman José e o Joel Branco,estavam eles no início de carreira.
EXCURSÕES
Eu e meu irmão começámos a realizar excursões pelo país,foi para o norte,para o sul,fomos á Serra da Estrela,Coimbra, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Covilhã, Portalegre, Évora, Nazaré, Alcobaça, Batalha, Fátima,etc.
Na primeira escolhemos o autocarro duma firma de Sesimbra o Covas e Filhos, o motorista que nos calhou foi o Sr.Jacinto,uma pessoa espectacular,a partir daí foi sempre o nosso motorista,o carro era sempre alugado através dele,começou a ser nosso amigo de família assim como sua esposa e filha.
Numa dessas excursões ao visitarmos um cruzeiro, subimos para ver a paisagem e ao descer ele caiu e torceu o pé,mas continuou a viagem,sempre que parávamos para irmos visitar alguma coisa lá ia ele apoiado em nós,recordo que vimos a festa dos tabuleiros em Tomar sempre com ele apoiado nos nossos ombros,e conseguiu levar o carro até Sesimbra,convivemos durante anos,ele reformou-se foi para a terra dele e perdemos o
contacto.
MEU FUTURO CUNHADO
Numa das minhas idas ao Alentejo ver a namorada,soube que o irmão chegado à pouco da Guiné onde tinha cumprido o serviço militar,tinha conseguído emprego em Lisboa, como não tinha cá ninguém convidei-o a vir para minha casa,falei com os meus pais,e como a casa era grande eles aceitaram,com o tempo fomos ficando bons amigos,saíamos juntos, guardávamos alguns segredos,foi connosco a muitas excursões,e tornou-se nos olhos da irmã para me vigiar,enquanto eu estava longe dela,saíu de nossa casa para casar.
Ainda recordo ter ido com ele ao aeroporto de Lisboa,esperar a irmã dele,a Felícia,o cunhado,o Cardoso,e uma menina muito bonita com dois anos, a Elsa, que era afilhada da minha namorada,e de quem ela falava muito,vieram de Angola onde o Cardoso que era agente da PSP cumpria serviço,vieram morar para o Bairro da Boavista em Camarate, comecei a conviver com eles ,pessoas impecáveis e amigas,no verão íamos para a praia juntos,quando a minha namorada vinha cá de férias.
DADOR DE SANGUE
Quando fiz 18 anos comecei a dar sangue (naquela altura a vender),o meu pai já era á muito,e levou-me com ele,eu nessa altura tinha sempre que vinha o Inverno,muitas frieiras e dar sangue fê-las desaparecer,dávamos sangue numa clínica particular em Lisboa,e certo dia foram ao trabalho buscar-me para ir dar sangue a um doente,fui com eles para Lisboa a uma clínica e dei sangue directo a outra pessoa,foi a única vez que me custou dar sangue, doeu-me muito o braço,continuei a dar depois no hospital de S.José,e depois no Garcia de Horta em Almada, aqui já sem nada receber,é uma dádiva gratuita mas pode salvar uma vida.
SERVIÇO MILITAR
Quando chegou a altura de ir ao recrutamento para a tropa,o médico que me curou o joelho fez-me um relatório, para eu apresentar ao médico na inspecção militar, e então passei á reserva,se fosse antes do 25 de Abril de nada servia,mas como já não estávamos em guerra lá me safei.
Recordo que um ou dois anos antes meu padrinho,que era soldador e vivia na Alemanha, estava a trabalhar nas plataformas de petróleo,me arranjou lá trabalho,não pude ir porque não tive autorização dos serviços militares,
pensavam que queria fugir á tropa.
A CASA DA TIA EMÌLIA
A minha tia morava tambem em Mutela perto de nós,como o meu tio se reformou foram viver para o Cercal perto das Caldas da Rainha,ficamos entregues á casa ,e na parte do quintal tinhamos lá umas capoeiras, começámos a criar galinhas e coelhos, e a fazer bons petiscos aos fins de semana.
Havia um anexo onde com o meu irmão montámos uma oficina,começámos a fazer reparações em electrodomésticos e outros serviços,e lá íamos ganhando algum.
Foi aqui que pela primeira vez a minha noiva veio a nossa casa, com a irmã o cunhado e a Elsa que é sua afilhada,fizemos um almoço com os frangos que tínhamos,uma bela churrascada.
PENSAR EM CASAR
E ao fim de 5 anos de namoro pensamos em juntar os trapinhos,falei com os meus pais eles não se opuseram, disseram-me que não podiam pagar o casamento,era só meu pai a trabalhar e não se ganhava muito,eu concordei seria por nossa conta,e lá comecámos com os preparativos,convites,roupas,papelada,etc.
Como não tinhamos casa nem dinheiro para comprar,tentei alugar uma,mas um dia em conversa com uma tia minha que era viúva,e vivia nas Paivas numa vivenda de dois pisos com a filha,soube que ela ía ficar sózinha, pois a filha comprara um andar em Almada,e ía para lá morar.Acertámos as coisas e ficou combinado que ela iria para o 1º andar e nós ficaríamos no r/chão,mas só passado um ano,que era o tempo da casa nova da minha prima estar pronta.
Resolvemos então morar o primeiro ano em casa de meus pais,e lá arranjei um quarto só para nós.
Ela veio a Lisboa para casa da irmã ,lá fomos um dia á baixa comprei o meu fato e chegou o dia de irmos todos para o Alentejo,pois foi lá que casei.